Segunda-feira, 31 de julho
de 2000 - O Estado de S.Paulo
Situação na
agricultura ainda é de crise
Pnad mostra maior ocupação
no campo, mas é trabalho de subsistência ou sem remuneração
ROBERTA JANSEN
- RIO - Embora os
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad)
indiquem um crescimento no número de ocupados no setor
agrícola entre 1998 e 1999, a realidade do setor não é
promissora como pode parecer. Mais da metade das pessoas
(63,2%) incorporadas à atividade agrícola nesse período
são trabalhadores não remunerados ou que plantam apenas
para consumo próprio.
- "O Brasil é a
oitava potência econômica do mundo; é inaceitável que
ainda existam tantas pessoas plantando somente para comer",
disse o economista José Graziano, do Núcleo de Economia
Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ele avalia que não houve melhora na situação do campo.
- "Não há
volta ao campo, nem aumento de pessoas na agricultura",
afirmou, lembrando que os "novos" trabalhadores
agrícolas são basicamente aqueles que, em 1998, em função
da seca no Nordeste, migraram para as frentes de trabalho
e, agora, com a melhora das condições climáticas,
voltaram à agricultura, ganhando menos do que recebiam
nas frentes.
- De fato, de acordo
com dados da Pnad, o número de pessoas empregadas no
setor agrícola diminuiu em 247.802, entre 1997 e 1998.
"São as mesmas pessoas, só que, quando estavam nas
frentes, foram contabilizadas como trabalhadores da
construção civil e, agora, foram contadas novamente
como agricultores." A coordenadora da Pnad, Vandeli
dos Santos Guerra, concorda com a análise de Graziano.
"1998 foi um ano muito ruim, em que as pessoas foram
para as frentes de trabalho", constatou a
pesquisadora. "Já o ano passado foi muito bom, com
uma safra grande, e as pessoas voltaram a seus postos
anteriores."
- Tendência -
Vandeli não acredita contudo que esse aumento no número
de ocupados na agricultura irá manter-se: "A
participação dos ocupados na agricultura vem diminuindo,
essa tendência não mudou." Como ponto positivo, no
entanto, a pesquisadora aponta a crescente formalização
do emprego no campo, observada desde o início dos anos
80. Segundo dados da Pnad, o percentual de pessoas
ocupadas com carteira assinada na agricultura passou de
13,3%, em 1981 para 29,9%, em 1999.
- Miséria -
Na avaliação de Graziano, no entanto, a situação no
campo é de miséria. "Essas pessoas que voltaram
das frentes de trabalho estão piores do que antes,
ganham menos na agricultura familiar do que o salário mínimo
pago pelas frentes", disse. A avaliação é
compartilhada por Gilberto Portes, da coordenação
nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST). Citando números
de uma pesquisa feita no ano passado pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) do Ministério
da Agricultura, Portes lembrou que 81% dos
estabelecimentos agrícolas do País têm menos de 50
hectares e oferecem remuneração inferior ao salário mínimo.
- "O próprio
governo faz essa avaliação", lembrou Portes.
"Com essa remuneração, os pequenos agricultores não
têm como sobreviver: uma parte não pode pegar empréstimos
porque os juros estão altíssimos e a outra, que
contraiu dívidas anteriormente, terá de entregar a
terra para pagá-los."
- Segundo os
pesquisadores Eliseu Alves, Mauro Lopes e Elísio Contini,
autores do estudo da Embrapa, dos 4,9 milhões de
estabelecimentos agrícolas existentes, restarão apenas
600 mil. Eles frisaram na conclusão de seu trabalho:
"O Nordeste representa a grande bomba migratória;
de 8 a 13 milhões de nordestinos estão com o pé na
estrada."
- Novas atividades
- O economista José Graziano, em um estudo denominado O
Novo Rural Brasileiro, avalia que o fluxo migratório
só não foi maior nos últimos anos porque cresceu o número
de novas atividades no campo. Ele menciona as atividades
ligadas à agropecuária moderna, trabalhos não-agrícolas
(relacionados ao lazer e à prestação de serviços), além
da piscicultura, horticultura, floricultura, criação de
pequenos animais. "Essas atividades se transformaram
em importantes alternativas de emprego e renda no meio
rural nos anos mais recentes", disse.