Foi-se o tempo em que a China fabricava e exportava
apenas bugigangas para o Brasil, daquelas que fizeram explodir
pelo País as famigeradas lojas de “R$ 1,99”. É verdade que a falta
de qualidade e os conseqüentes preços abaixo do mercado ainda
existem. É comum encontrarmos produtos chineses como ferramentas,
calculadoras, lâmpadas, calçados, guarda-chuvas, varas de pesca,
tecidos, etc.
Entretanto, essa não é mais a regra atual. A
constatação de que algo mudou e continua mudando rapidamente fica
mais evidente quando encontramos computadores, máquinas
fotográficas digitais e demais equipamentos de informática com a
famosa etiqueta “made in China” acoplada a produtos de marcas
transnacionais famosas, inclusive japonesas. Crescendo há décadas
por volta de 10% ao ano, enquanto o Brasil não passa de 2,1%,
aquele país tem metas audaciosas de desenvolvimento. Somente no
ano de 2004 investiu cerca de US$ 90,4 bilhões em educação,
ficando um pouco abaixo de todo o valor das exportações
brasileiras no mesmo período (cerca de US$ 96 bilhões). Enquanto
isso, as universidades brasileiras vivem em greve, com professores
mal remunerados e promessas de reajuste salarial não cumpridas por
parte do governo federal. Os bancos, só no ano passado, faturaram
cerca de R$ 31 bilhões só em tarifas. Ao invés de investir em
educação e na produção, o País incentiva a especulação. No lugar
de metas de desenvolvimento, metas de inflação e de superávit
primário. Quanto à China, o percentual de matrículas no ensino
superior saltou de 1,4% em 1978 para cerca de 20% em 2005. Só em
engenharia, a China está produzindo cerca de 450 mil novos
graduados por ano, além de 48 mil mestres e 8 mil doutores. O
suplemento Educação do jornal “The Times”, da Grã-Bretanha,
publicado em outubro do ano passado, mostra a Universidade de
Beijing (o nome atual da capital Pequim) no 15º lugar entre as
melhores do mundo e em 1º na Ásia, ultrapassando, pela primeira
vez na história, a Universidade de Tóquio, no Japão. Há mais de 3
mil universidades em todo o território chinês, das quais, cerca de
dois terços pertencem ao Estado e o restante é privado, onde
estudam cerca de 12 milhões de chineses, sem contar as
instituições de ensino técnico e profissionalizante, onde se somam
mais 20 milhões de alunos. Todo esse salto qualitativo já tirou
cerca de 200 milhões de habitantes da pobreza.
Outra frente de atuação é a econômica. O yuan, que é a moeda
oficial, está super desvalorizado em relação ao dólar americano
(aproximadamente 8,38 yuans valem 1 dólar), enquanto um real vale
pouco mais da metade da moeda americana (aproximadamente 2,30
reais por dólar). Sendo assim, os produtos do Dragão Asiático têm
preços quatro vezes mais atraentes que os dos similares
brasileiros. Não é à toa que aquele país saltou para uma das cinco
maiores economias mundiais, podendo até ultrapassar a Alemanha nos
próximos anos e se tornar a terceira maior potência econômica
mundial. O maior exemplo dessa agressividade foi a compra de parte
da gigante americana IBM, mais especificamente na área de produção
de computadores pessoais onde, seguindo o modelo sul-coreano,
optou pelo lançamento de marca própria ‘Lenovo’, que até 2008
pretende dominar o mercado brasileiro. Enquanto isso, o Pólo
Industrial de Manaus se especializou em montar equipamentos
importados, ao invés de se tornar um pólo industrial de difusão
tecnológica e científica.
Já no aspecto político, é bem verdade que a palavra ‘democracia’
ainda parece distante de sua realidade, mas de que adianta um país
se intitular democrata, como o Brasil, se a corrupção é difundida,
o corporativismo é escancarado, e boa parte da população apenas
subsiste?