Transposição do Rio São Francisco não se discute
Eduardo
Frigoletto
Nos últimos meses tenho assistido aos intensos
debates e ações a favor e contra a transposição do rio São
Francisco. De um lado, os fervorosos defensores do desvio do rio –
entre eles o incansável ministro cearense Ciro Gomes – alegam que
essa é uma ação antes de tudo humanitária e que de forma quase
milagrosa irá acabar com o problema da falta de água que aflige os
“irmãos” do Nordeste setentrional.
De outro lado, contra a obra, o incansável governador de Sergipe,
religiosos, outros políticos, ambientalistas, pescadores, indígenas
e demais moradores que dependem daquele rio para tirar seu sustento.
Há ainda aqueles que ora sustentam uma posição, ora assumem outra,
como é o caso do governador de Alagoas, que antes era a favor e
agora se posiciona aparentemente contra.
Entre os defensores da transposição, estão alguns engenheiros civis
e até meteorologistas que alegam que do ponto de vista técnico a
obra é possível. Esse argumento é verdadeiro, uma vez que a
engenharia atualmente é capaz de praticamente tudo. O problema não é
esse. Caso fosse tão simples, cito o exemplo da possibilidade de
demolir o casario colonial da cidade de Penedo e em seu lugar
construirmos um shopping gigantesco. A engenharia diria que é
possível, mas o bom senso aponta para uma aberração que seria
cometida contra a memória e a cultura alagoana e brasileira. Mesmo
assim, a engenharia diria que é possível ...
Em congressos de que participei, os ânimos chegaram a ficar
acirrados a ponto de quase ocorrerem agressões físicas entre os
participantes a favor e os contrários. Acredito até que o ditado
popular “sexo, religião, futebol não se discutem” está prestes a
mudar para: “sexo, religião, futebol e transposição do rio São
Francisco não se discutem”, tamanha é a controvérsia a respeito do
tema. Chego a ter a convicção de que se, ao invés de Estados, fossem
países os envolvidos na questão, já teria havido guerra entre os
mesmos.
Decidi então, baseado em diversas visitas à região da foz daquele
rio, entrevistas com moradores, fotos tiradas em anos anteriores,
emitir minha opinião sobre o assunto, não para “jogar lenha” na
questão, mas apenas para enfatizar pontos que não vêm sendo citados
nas diversas matérias que tenho lido nos jornais e assistido nos
telejornais.
Quanto ao aspecto ambiental local, nos últimos 4 ou 5 anos se formou
uma lagoa junto à foz daquele rio, provando que está havendo, sim,
um enfraquecimento em sua vazão. Também é fato que espécies de
peixes marinhos estão adentrando cada vez mais no rio. A presença de
manguezal vários quilômetros rio acima comprova essa perda de vazão
do rio e avanço do mar.
O assoreamento em vários pontos também é fácil de ser constatado.
Basta uma pequena viagem ao local para se verificar. Sem falar no
volume de pesca que vem diminuindo a cada ano que passa. A erosão
das margens do rio demonstra que sua profundidade foi reduzida.
Sem falar nas mais de 500 cidades ribeirinhas que jogam seus esgotos
“in natura” no rio, desde Minas Gerais, passando pela Bahia, até
chegar entre Alagoas e Sergipe, sem que haja um programa oficial
para resolução do problema.
No aspecto ambiental mais regional, a água transposta teria de ser
bombeada até mais de 300 metros acima do nível do São Francisco, com
imensos gastos de energia elétrica para tal fim, além de perdas com
evaporação e infiltração durante o transporte de mais de 2.000km nos
túneis e aquedutos.
Não podemos esquecer que mesmo antes do início das obras, já foi
detectado um superfaturamento na obra de R$ 400 milhões: “Em terra
de mensalão, é melhor ficar de olho, meu irmão!”. Alguns bilhões de
reais gastos numa obra duvidosa são no mínimo para se desconfiar.
Já no aspecto político, Alagoas e Sergipe são os mais prejudicados
por terem pequeno peso eleitoral frente aos grandes interessados:
Ceará e Pernambuco. Transposição sem revitalização, nem pensar!